segunda-feira, 30 de abril de 2012

Religião nos "olhos" dos outros é refresco...

Volta e meia eu pego o elevador junto com uma família muçulmana que mora no meu prédio. Os homens tem aquela cara austera, nunca sorriem e estão sempre falando em árabe. As mulheres usam véu e quase nunca se pronunciam. Confesso que sempre fico um pouco apreensivo. Não porque eu ache que eles são terroristas da Al Qaeda e vão explodir uma bomba a qualquer momento. As chances deles serem um núcleo de radicais islâmicos prontos para uma ação de terror são as mesmas de que meu outro vizinho protestante seja da Ku Klux Klan, ou seja, mínimas. Fico receoso porque tenho medo de olhar demais para uma das mulheres, ou falar alguma coisa sem querer que seja considerado desrespeitoso na cultura deles.

Muito bem, mas eu falei isso por algum motivo e não fui direto ao ponto. Já explico: mais de uma vez ouvi de amigos e conhecidos o quão grotesco é esse hábito de usar véu no rosto das mulheres, o quanto é absurdo a cultura de acreditar que o homem morto em uma Jihad vai para o céu e que lá o aguardam sei lá quantas virgens e como é idiota rezar varias vezes por dia virado para Meca. O que tenho a dizer sobre isso se resume em um simples ditado popular: "Quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra".

As pessoas estão tão acostumadas com sua própria cultura que ficam chocadas quando outras pessoas pensam e agem diferente. Veja, não sei se usar véu, ou na expressão máxima dessa modalidade, usar burca é pior do que botar crianças para sensualizarem nas tardes de domingo em cadeia nacional. Se você não entendeu o que eu estou escrevendo é porque não viu ou não lembra dos campeonatos da "Dança da Garrafa", onde crianças de seus 6, 7 anos de idade dançavam rebolando na "boquinha da garrafa".
 

 É também muito peculiar que se considere todo muçulmano terrorista, mas que seja uma heresia apontar o dedo para um católico taxando-o de pedófilo ou inquisitor. O que para uns é assunto muito sério, para outros não passa de piada. Para a maioria (aqui no Brasil) é caricato ver um islâmico orando para Meca e constrangedor ver as explosões de fé em um culto evangélico. Mas é proibido tornar anedota as carolas chorosas ajoelhadas em devoção a uma estátua. Aliás, estátua essa que já foi motivo de polêmica ao ser chutada (e despedaçada) por um evangélico que também não admitia que ídolos fossem louvados.

Interessante achar que índios são lunáticos que acham que uma simples máquina fotográfica tem o poder de tirar a alma de uma pessoa, mas é perfeitamente compreensivo acreditar que exista uma alma, algo que não se pode ver, ouvir, entender ou provar.Perceba você como o que é certo, errado, bom ou mal só é definido pela sua cultura. Para a maioria dos religiosos, a genética é uma tentativa de brincar de ser Deus e isso, meu caro, não será perdoado, nem por Ele, nem pelos homens que o temem.

Às vezes, até dentro da mesma religião existem desavenças e acusações de ignorância ou heresia. Muitos cristãos tiram sarro dos religiosos mais conservadores que acreditam no Criacionismo, na Arca de Noé e nos papos sérios entre Moisés e Deus no topo do Sinai. Esses têm que lembrar que acreditam em um homem que caminhava sobre as águas, ressuscitava gente morta e subiu aos céus de corpo e alma. Se no Brasil acreditássemos, por exemplo,em Thor, o Deus do Trovão, que traz tempestades guiando sua charrete voadora puxada por bodes, as histórias sobre Jesus nos pareceriam um tanto quanto absurdas. Concorda?


Não estou aqui julgando no que cada um deve acreditar, mas sim defendendo o direito de cada um acreditar no que quiser sem ser taxado de idiota, malfeitor ou ignorante. Minha fase de querer afirmar minha concepção sobre as coisas do além passou há algum tempo, quando percebi que discutir com fanáticos é completamente inútil. Mas acredito que seja possível sensibilizar meia dúzia de pessoas para que, ao menos, antes de condenar a cultura alheia, faça uma análise da sua própria. Pondere se as letras de Axé, Pagode e Funk são mais ou menos ofensivas para as mulheres do que o uso do véu e de fazê-las andarem atrás do homem. Pense se um céu cheio de virgens é mais absurdo do que um céu cheio de pessoas boas vestidas de branco cercada de anjos tocando liras. Reflita se temer ter a alma raptada por uma máquina fotográfica é tão mais incoerente do que acreditar em vida após a morte. Por fim, avalie se as coisas que você acredita são assim tão diferentes das que os outros acreditam.

PS:espero que fique claro que estou falando de hábitos culturais e religiosos que não prejudiquem a integridade física de outras pessoas. Não estou defendendo a extirpação de clitóris de países do norte da África e nem o estupro de virgens para a "cura" da AIDS, comum na África do Sul.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Aquele sujeitinho arrogante, Anderson Silva

"This is the West, sir. When the legend becomes fact, print the legend" - The Man Who Shot Liberty Valance (1962).



Ontem foi ao ar o programa Profissão Repórter sobre MMA. Para quem não conhece, o programa é focado no cotidiano de jovens jornalistas (focas) no exercício de sua profissão. Seu idealizador e apresentador é o consagrado jornalista Caco Barcelos, conhecidos por suas matérias investigativas e seus livros campeões de vendas.

Como já citei anteriormente, o programa de ontem teve como tema a nova febre mundial, o Mixed Martial Arts, conhecido antigamente no Brasil por Vale Tudo. O tema não foi escolhido à toa. O esporte tem crescido em escala exponencial e a Rede Globo percebeu isso como uma grande oportunidade. Tanto que transmitiu a última edição do UFC Rio e exibe semanalmente o reality show The Ultimate Fighter, que busca novos campeões da categoria.

Mas o post não é sobre a Rede Globo. Afinal, uma empresa de comunicação vive de audiência e não serei eu, um publicitário, que direi que ela deve fazer o contrário. O post é sobre o que fizeram com Anderson Silva nesse programa.



O programa se dispunha a traçar um perfil do maior ídolo do esporte, o Spider. Para isso, mandaram um foca para o Rio de Janeiro, onde o lutador participaria de um evento. Anderson Silva, embora avesso a jornalistas, recebeu o garoto de bom grado e deu uma entrevista que rendeu um vídeo editado de 4:30 minutos, que não foi ao ar na íntegra.

Mas para o foca, aquilo era pouco. O rapaz queria fazer, no mínimo, um documentário com o astro e assim garantir que seus 15 minutos de fama não desaparecessem, como acontece com tantos outros "protagonistas" do programa. Anderson disse que não e mandou-o procurar a 9ine, empresa que gerencia sua imagem.

É aí que a porca começa a torcer o rabo. Caco Barcelos recebeu seu pequeno padawan, que se ressentia de não ter conseguido a entrevista do jeito que planejara. O mestre então começa a usar seu sarcasmo (#WillieWonkaFeelings) e acha estranho Anderson Silva não querer dar entrevista (Porra, to confuso! Ele não deu a entrevista?). Diz que o fato é curioso, pois no passado ele participou de inúmeros programas de TV, não só de esportes, mas de variedades. Nesse momento, Caco Barcelos finge esquecer que Anderson Silva não está de férias e sim a 3 meses de seu maior desafio, a revanche contra Chael Sonnen.

Perceba, como já dizia o poeta Marcelo D2, quem tem o Mic na mão, tem a faca e o queijo. No caso, Caco Barcelos e seus pupilos têm não só o microfone. Têm o microfone, a ilha de edição e 30 minutos no maior veiculo de comunicação do Brasil. A partir daí, o que se vê é uma série de transgressões ao que, nos bons cursos de Jornalismo se ensina como ética.

O foca foi à Curitiba entrevistar a família de Anderson Silva em um bairro popular da cidade e mostrou a situação de seus irmãos. Mas o foca esqueceu de dar um background. Não quis saber (ou mostrar) como era e é o relacionamento dele com a família. Será que o foca queria passar alguma coisa nas entrelinhas?

Depois disso, o entrevistador foi ao primeiro mestre de Anderson Silva, que se emocionou diante das câmeras e disse que o lutador é um ingrato. Ponto para o foca. Soube manipular mais uma vez a matéria, já que não foi apresentado um contexto.

O foca continua sua batalha para se vingar do arrogante lutador que não quis passar a semana ao seu lado, não permitindo assim que ele chegasse ao valhala dos repórteres. O próximo golpe foi entrevistar o pai de Anderson Silva, um senhor de idade visivelmente sem preparo para dar entrevista. Eu teria ficado com vergonha alheia, caso não estivesse indignado com a matéria perversa.

E assim se desconstrói a imagem de um cara que faz questão de valorizar o país e o povo brasileiro toda vez que da uma entrevista.

E por que um jornalista consagrado permitiria que um pupilo fizesse isso em seu programa? Porque é exatamente isso o que ele quer. Porque é exatamente assim que trabalha o Sr. Caco Barcelos. O que interessa ali não é a verdade, mas a glória. Não digo nem que ele faça isso pelo dinheiro. Acredito que seria muito mais lucrativo para ele participar da campanha da Globo para tornar Anderson Silva o novo Ayrton Senna, mas sua vaidade é superior.



Esse Caco Barcelos que critica Anderson Silva é o mesmo que escreveu Abusado, livro campeão de vendas em 2003, que contava a história de Marcinho VP e os bastidores do tráfico no morro Dona Marta. Livro que foi o estopim para a morte do protagonista e de mais 6 traficantes citados no livro. Bem, você mais radical deve pensar "mas eram traficantes, porra". E eu replico: eram traficantes, mas os filhos deles não eram traficantes. Enquanto as famílias dos "personagens" do livro eram ameaçadas por outros traficantes, o autor estava em Londres, curtindo seu cargo de correspondente internacional. Isso porque ao invés de usar pseudônimos, o premiado jornalista escreveu nome e sobrenome de seus informantes.



Mas, no fim das contas, esse Anderson Silva é mesmo arrogante e mereceu levar esse golpe na boca do estômago! Mereceu ficar twitando com a hashtag do programa e ver o que fizeram com a matéria sobre ele. O certo seria ele parar de treinar e atender a fãs e jornalistas, como fez a Seleção Brasileira de Ronaldo e Cia na Copa de 2006 (quem não se lembra?). Assim, Anderson Silva perderia a luta e a imprensa teria mais assunto para falar. Assim, jornalista como o foca poderiam criticá-lo por ser um pop star que adora aparecer e dar autógrafos ao invés de um lutador compenetrado.

PS.: Se você acha que esse post foi exagerado e que isso é minhoca da minha cabeça, por favor me explique o porquê da entrevista não ter ido na íntegra para o programa. Será que foi só para desrespeitar quem ficou acordado até tarde?

Sobre Anderson Silva, tenho duas coisas a falar: lutador tem mais é que ser marrento mesmo e ele deveria dar os créditos pela frase twitada hoje pela manhã - "A cada dia eu aprendendo que não importa o quanto vc bate e sim o quanto se agüenta apanhar." - Rocky balboa.
 
Clicky Web Analytics