quarta-feira, 7 de abril de 2010

Amazing Race (ou History)

Nesse feriado de semana santa, tive mais uma das minhas idéias mirabolantes. Convidado para um evento cósmico em Gonçalves-MG - O CHURRASTRA - decidimos ir de moto. Uma NXR Bros 150cc!
Fiz revisão, troquei o óleo, arrumei o farol, calibrei o pneu com 22T e 29D (essa foi uma informação difícil de eu achar e quero compartilhar hehehe) e partimos, eu e minha consorte, Bárbara, rumo à aventura de nossas vidas.
Saímos de Santos-SP em direção à Gonça-MG às 12h40 e, segundo o Google Maps, o destino ficava a 287Km, indo pela Rod. Carvalho Pinto.
Google mentiroso

A viagem entre as cidades foi tranquilíssima. Só pegamos um chuvisco em Cubatão, mas isso é normal. O resto da estrada foi de sol ou no máximo um céu nublado.
Chegamos à abençoada cidade de Gonçalves às 18h10, onde percebemos que o Google tinha nos enganado. Gonça fica à mais de 300Km de distância. Percebemos também que só os celulares da Vivo funcionam (eu e a Bárbara temos Oi). Paramos no tradicional Bar do Marcelo, em frente à Igreja Matriz e batemos um rango de cidade do interior: misto quente com queijo minas.
Quando eram umas 19h30 e a noite já cobria nossas existências, fomos para a casa onde ficaríamos alojados. Nosso anfitrião havia feito um mapa com referências, pois a casa é bem afastada da cidade. Aliás, eu já tinha ido para lá uma vez e me lembro que com uma chuva fina, a estrada de terra tinha ficado uma M. e o carro (uma Sportage) atolou no barranco.
Fomos para o tal caminho que levava à casa. Era uma estrada de terra bem larga, mas sem nenhuma iluminação. Além de não ter postes de luz, ainda rolava umas árvores de copas frondosas que impediam até a luz do luar de nos iluminar a passagem. Eu só enxergava o que estava bem a frente da moto.
O caminho tinha aclives e declives, além de curvas bem fechadas e estava difícil ler o mapa na escuridão. Eventualmente, encontrávamos alguma pousada com a porteira iluminada e era nesses momentos que aproveitávamos para olhar o mapa.
Eis que em uma dessas pausas, minha mulher olhou para uma movimentação atrás de nós e viu que dois cães estavam em nosso encalço.
- Acelera, Nando!!!!! cachorro, cachorro!!!
Sem titubear ou questionar o motivo da aflição, acelerei o mais rápido possível e fugimos dos cães.
Seguimos em frente e passamos por um vilarejo chamado São Sebastião das Três Orelhas. Porque três orelhas? Não me pergunte! Deve ser coisa de extraterrestre!
Depois do vilarejo as coisas só pioraram. Em um determinado trecho, eu parei a moto, porque no meio da escuridão eu vi dois olhos brilhantes. Joguei o farol no bicho, mas ele ficou mal iluminado. Pela altura e pelo formato da cabeça, pensei que era um lobo guará. Minha mulher achou que era uma raposa. O bicho ficou em posição de ataque e eu resolvi acelerar! Seja o que Deus quiser!!!!
Na verdade era só um cachorro em cima de um barranco e ele não fez nada. Mas olhamos para ele mais de perto e, realmente, ele tinha uma cara de raposa do caralho!
Finalmente chegamos à igrejinha de tijolos que marcava a entrada da trilha que ia para a casa.
Pera aí... Trilha? Caraca, eu tinha esquecido completamente. Nós tínhamos que sair da "estrada principal de terra" para entrar (por uma porteira) numa estrada secundária.
A estrada secundária era sensacional. Nessa só tinha espaço para passar um carro de cada vez. Nós tínhamos percorrido pouco mais de 8Km, mas o relógio já marcava mais de 20h30 e nos embrenhamos na trilha.
Foto da Estrada Principal de dia

Poucos metros depois de adentrarmos ao caminho, o primeiro atoleiro. Passei com vontade, jogando lama para tudo quanto é lado. Aliás, devo exaltar a motinho que, contrariando todos os prognósticos malvados, foi guerreira e passou pelos obstáculos.
Ao todo foram 4 atoleiros que passamos patinhando de um lado para outro, correndo um enorme risco de ficarmos pelo meio do caminho ou cairmos de cara no barro.
Continuamos seguindo na escuridão total até passarmos o primeiro mata-burro, que era nossa primeira referência!
Depois do mata-burro, nos deparamos com uma subida mega íngreme com a estrada repleta de pedrinhas que quando a estrada está seca, só serve para nos fazer derrapar ainda mais! Com muito esforço, conseguimos subir o aclive.
Mas foi só para depois descobrirmos que logo após uma curva, tinha uma subida ainda mais íngreme e extensa.
Pânico se instalando na minha companheira de viagem.
- Você não me avisou que era assim!!! Grunhiu ela numa voz fina e quase chorosa.
- Eu não lembrava disso - respondi, tentando manter a calma.
Acelerei e fui subindo. Quando estávamos à uns 50m de vencer a subida, a moto começou a ficar sem potência e eu pensei que estava em segunda marcha. Desacelerei para diminuir a marcha, mas ela não estava lá. Foi meu único e derradeiro erro. Eu já estava em primeira e nessa manobra a moto perdeu totalmente potência e começou a escorregar para trás.
Os dois pés no chão e a mão puxando o freio a disco com toda a força não foram o bastante para parar a descida desgovernada da motoca.
- Se conseguir pular, pula - disse eu desesperado.
Minha mulher pulou e ainda tentou ajudar a segurar a moto. Infelizmente, contra as leis de Newton ninguém pode e a moto só parou num barranco.
Nos levantamos e constatamos que não estávamos (muito) machucados. A moto estava desligada e naquele momento, só a parca luz das estrelas nos iluminava. Um breu de dar medo.
Levantei a moto e liguei-a novamente. Esse foi um momento digno de filme de terror. Quando liguei a moto, o farol iluminou atrás da minha mulher um touro negro em cima de uma pedra, bem a frente no nosso caminho.
Boi da cara preta de dia já é agressive. Imagina a noite

- Não olha agora, mas tem um touro atrás de ti - alertei.
A Bárbara começou a chorar desesperada. Olhou para trás e viu a figura imponente dos bovino.
- Vamos embora, por favor! Pediu ela.
Mas eu sou muito cabeça dura para desistir de uma idéia assim "tão fácil".
Descemos a ladeira e subimos na moto. Peguei um embalo e fui!!! A moto foi bem devagarzinho e fomos vencendo a subida lentamente. Passamos pelo touro numa velocidade irrisória.
Quando chegamos ao topo da subida, que terminava em uma curva, percebemos que ela NÃO TERMINAVA e continuava por mais uns 25m com uma inclinação ainda maior. A moto aguentou e nessa hora eu senti orgulho de mim, porque foi uma tarefa dificílima controlar a potência na embreagem.
Quando chegamos na parte plana eu comecei a gritar:
- Conseguimos, conseguimos!
Me lembrei do final do filme Creep Show, quando o jovem acredita que venceu o monstro de óleo do lago.
Virei uma curva e me deparei com nada menos do que 15 vacas e bois deitados na pista. Minha mulher estava de olhos fechados e fui obrigado a trazê-la de volta à realidade.
- Bárbara, olha isso.
Ela voltou a chorar copiosamente, pedindo para voltarmos.
Eu buzinei, acelerei, cheguei mais perto, mas os bois não estavam muito afim de se levantar e liberar a estrada.
Puta merda, vamos ter que voltar - pensei.
Depois de chegar tão perto (naquele momento, faltavam pouco mais de 800m para chegar na casa), estávamos voltando. De novo: descidão, mata-burro, atoleiro, cão-raposa, escuridão e cidade!
Ficamos esperando na cidade até de madrugada, mas nossos anfitriões, que deveriam chegar às 23h, pegaram congestionamento e se atrasaram.
Tomei bronca (com razão):
- Tem noção que se acontece alguma coisa com a gente na estradinha, a gente não tem celular, não tem uma viva alma (tirando os bois) e nem luz? Gritou a patrôa.
Desistimos de esperar e fomos procurar uma pousada. A busca foi sem sucesso, pois as pousadas estavam todas lotadas. Todas, menos uma, que ficava ao lado da praça da Igreja Matriz.
Entramos na Pousada do Sol e fomos atendidos pelo Seu Henrique, um senhor que parecia uma assombração. Pagamos o quarto e fomos descansar. Mas a porta não trancava e eu não iria dormir achando que o Seu Henrique iria entrar a qualquer momento com um cutelo na mão. Depois de várias tentativas, conseguimos trancar a porta e dormir.
No outro dia, logo cedo, resolvemos tentar a sorte novamente.
- De dia é tranquilo! Garanti.
Mais uma vez passamos pela estrada principal, pelos atoleiros, pelo mata-burro pela subidona e chegamos ao ponto dos bois.
Desta vez fomos mais intrépidos, pois os bois estavam de pé e tinha espaço entre eles para passarmos.
- Fecha os olhos e pensamento positivo - gritei, acelerando a moto.
Passamos no meios dos bovinos, buzinando e acelerando até chegar ao segundo mata-burro.
Finalmente chegamos à casa para passar uma agradabilíssimo final de semana no campo, regado à muito elixir e néctar de TRA!
Galera de Kruashtron Tra

Para finalizar, choveram dois dias (sábado e domingo) e a estradinha ficou ainda mais perigosa. Fizemos a volta para Santos em 7h30min, com um bom pedaço debaixo de chuva, mas agora estamos bem e inteiros!

26 comentários:

Sandir Leonardo disse...

Hahahaha! Sensacional! Passar por tudo isso e ter que voltar pra trás é realmente uma merd@foda... Mas no final, certamente deve ter valido o esforço! Abraço!

Lúcio disse...

Porra, o Draszen fica só atrás do moleque dele e não dá cobertura a vocês numa hora dessas? Personagem egoísta do cacete.

Bruno Vox disse...

Um chuvisco em Cubatão é chuva ácida.

maluco, de moto? Nem morto eu faria. E a sua esposa é mais corajosa do que eu.

A história do boi me lembra quando quase fomos mortos por um. Foi tenso.

Charles Zimmermann disse...

Tinha uma cara de raposa do caralho!
DSAHDSADHSAUIHDUSIAHSIUAHDUISAHDSAD

Marcus disse...

Praticamente um Férias Frustradas 5, hein?

Murilo Netto disse...

Hahahah... Você podia ter me ligado pra pedir ajuda... Eu estava a 50 km dali, em Santo Antonio do Pinhal... ahahahahah Irresponsável!!! hahahahha

Gley disse...

Já passei por coisa parecida (não de moto) e sei que às vezes bate um desespero (principalmente na patroa). Mas a satisfação de ter mais uma aventura pra contar é muito gratificante.

Muito bom ter lembrado do Creep Show, até hoje eu uso o bordão "obrigado pela carona, dona, obrigado pela carona" por causa da terceira história do filme.

Falou.

Cachorrão disse...

Medo de bois e vacas, esse "pessoar" da cidade eita, kkkkkkkkkk!

Rafael disse...

Muito Boa a historia Jack! digna de um filme de suspense!!
Eu ja fiz algumas trilhas por Gonçalves, soh que de troller e com um grupo... mas mesmo assim ainda foram bem trash. Carros atolados, horas pra desatolar.. etc...

PS1: desculpa pela falta de acentos ainda nao consegui configurar esse bendito teclado..!

PS2: vc disse que tem um sportage, a empresa com quem eu sempre faco trilhas eh ai de Santos... O nome eh mundo offroad www.mundooffroad.com.br/

Caso vc se interesse, as trilhas vao desde leves ateh hard, mais na maioria das vezes sao trilhas com um foco mais na familia. Por roteiros com belezas naturais e/ou historicas.
Fica a dica..
abrass

Luciano Gardim disse...

Não querendo fazer um comentário clichê, mas já fazendo: isso fica marcado, e você lembrará disso daqui muuuitos anos.

Vida longa ao nerdcast, às aventuras, e Deus nos livre das chatices da vida, Tucano.

Numa próxima oportunidade, não pense duas vezes. Pegue sua moto, sua garota, e vá.

Luciano Gardim disse...

Não querendo fazer um comentário clichê, mas já fazendo: isso fica marcado, e você lembrará disso daqui muuuitos anos.

Vida longa ao nerdcast, às aventuras, e Deus nos livre das chatices da vida, Tucano.

Numa próxima oportunidade, não pense duas vezes. Pegue sua moto, sua garota, e vá.

Rodolfo disse...

uiasdhfuasdnfdasi

eu viajei uma vez de moto, foram 70km, sofrimento demais.

Mas a moto do meu pai é uma XL80 ano 1981 dsahufgasduyfhnauysdhfnasfnhiasdhfuidsa

quando eu sai da moto não conseguia fechar as pernas jidfhuadyshnfmiausdlfhiadu

caiOHawk disse...

Uma história em tanto para contar no nerdcast hehe

Fiquei com mais vontade ainda de viajar na minha moto.

nerdherd (david) disse...

Muleke..tu é doido..fazer viajem ao interior de moto auhauha..

Ri muito com sua aventura..coitada da Bárbara.

Realmente não dá para confiar piamente no Maps..já fiz viajem onde ele errou por 150 Km..

Abraço

Rafael disse...

Caracas, ri a valer com a saga.

Eric Augusto disse...

Caraca Russell isso sim é "Road Trip" Épica!

O pior eh ter q fazer o caminho de volta. E da-lhe a moto q aguentou firme.

Po ta ae uma sugestão pra Nerdcast "Road Movies". Sugere la assim vc divide a experiencia e ajuda a comparar entre vida real e filme.

bylucas disse...

Medo de boi? só podia ser um elfo da cidade...(risos). História bacana

Anônimo disse...

Minas é show demais, espero que tenha gostado apesar da dose de realidade naturalistica

The Gunslinger - O Nerd Escritor disse...

Como disse no twitter. Boi na estrada a noite é moleza, quero ver tu lidar com as bananeiras mutantes aqui de Corupá City! =)

Ótima aventura Tucano e narracão impecável! Ta até parecendo um Hobbit Lá e de Volta outra Vez... mas tu é elfo!! :D

Lbomfa disse...

O melhor de tudo é a cara dele de "Que M#$#" na última foto!

Aline disse...

Caraca, que tenso! Confesso que achei engraçado, mas foi muito legal de ler.

E parabéns para a senhora Tucano, mulher de coragem!

Abraços!

Rosangela Silva disse...

Tu e a Ba tao com uma cara de sofrimento nessa foto! Pq sera? Pelo que ja tinham passado ou pela apreensao do que ainda estava por vir na volta?? hauahauhauahaua... Ai ai, soh vcs mesmooo!

Ricardão disse...

Muito boa historia! Ou "causo" como dizem lá em Minas!

O legal seria vc agradecer aos céus por sua mulher não ter lhe mutilado quando chegaram em Santos! Hehehehe!

Elifa disse...

Será a cara do Tucano na foto de indignação com tudo que aconteceu? Tá muito sério! huehuehue

Ótima história, ri muito. Principalmente com a foto =]

Anônimo disse...

Hahahahahah! Cachorro, cachorro! Sutil, seu Tucano, sutil.

Luiz disse...

Quando eu ouvi esse causo no Nerdcast eu quase chorei de rir na hora em que você disse "Era o boi da cara preta". Minha namorada foi ouvindo meio sem vontade no começo, mas depois ela quis ouvir até o final hahahaha

Imagino como seria dar de cara com um bicho desse tamanho no escuro...

Isso aí, esse é o espírito "motoqueiro, porra"!

 
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